Pampas
Uma aventura destemida
Era manhã, o sol já iluminava os fundos de uma casa alugada em Taguatinga.
De baixo da mesa, Pampas abria seus olhos por conta da claridade, mas permaneceu imóvel em sua caminha. Estava deitada de lado com suas quatro patas esparramadas quando ouviu um barulho vindo de dentro de casa. Arregalou os olhos, mas pensou que era apenas o Vô lavando as louças.
Dando uma esticada longa e demorada em suas patas vascaínas:
PAM BAM
Instintivamente Pampas levantou sua cabeça, olhando para a esquerda enquanto se sentava — já estava na sua pose de aventureira.
My motivation is gone too soon…
Pampas partia em direção da porta, sem tração por suas patas escorregadias no chão liso.
PampasPai, pai, pai, acordou? Pai, eu, pai, lembra de mim? É a Pampas! Pai! A PAMPAS!!!! PAI SOU EU A PAMPASS PAAAAI!!!!!
Junto ao barulho de suas patas batendo contra a porta e contra o chão com seus pulos, esse era seu ritual de bom-dia num dia bom.
PampasVou ficar quieta porque o Pai gosta que eu me comporte.
Falou enquanto sentava com seu peito esticado para frente, como se algum adestrador lhe houvesse dado um comando. Viu uma figura masculina se formando no vidro, cada vez mais perto. Permaneceu sentada, mas não conseguiu segurar a ansiedade de suas patas dianteiras.
tic · tic · tic · tic
Pampas não podia acreditar: mais um dia começava. Seu pai estava vindo lhe dar bom-dia; Lucas a esperava lá dentro. Eram tantas possibilidades que seus olhos se arregalaram. No momento em que a porta abriu, Pampas correu em direção ao pai dando um frontal duplo em sua barriga.
PaiAi sua fia da mãe... Bom-dia disgramada.
PaiDormiu bem, minha plincesa?
PampasPai, pai, você-acredita-que-eu-sonhei-que-uma-tartaruga-me-chamava-pro-mar-e-eu-ia-e-tinha-uma-baleia-que-fazia WOOOOOOOOOAN...
Depois de passar por seu pai, seu próximo alvo era o irmão. Procurou embaixo da mesa, na sala e, ao entrar no quarto do Pai, viu Lucas enfiado nas cobertas da cama.
PampasOi, Lucas! Bom-dia, Lucas!
Lucas já havia acordado. Estava em sua pose de bolinha, mostrando apenas seus olhos no meio das cobertas. Acompanhou com os olhos as costas de Pampas como se fosse um tubarão branco e preto sem barbatana.
PampasLucas, por que você pode ficar aí e eu não, em?
LucasOlha o seu tamanho.
PampasQue que tem meu tamanho, Lucas? Eu nem sou tão grande assim. Você já viu um urso? Um urso é muuuuito maior que eu, eu sou pequena perto de um urso.
LucasQue urso menina, onde você viu um urso?
PampasEu não vi um urso… Eu vi um cachorro que parecia um urso. Se o cachorro que parece um urso já é grande, IMAGINA UM URSO LUCASSSSS!!!!
Pampas levantou correndo pois ouviu seu pai lavando as louças. Ficou entre a porta e a pia, sentada.
PampasPai, lembra aquele dia que a gente viu o cachorro que parecia um urso? Se aquele cachorro que só parecia um urso mas nem era urso era grande, imagina um ursão, Pai. Eu morri de medo. Por favor, Pai, compra uma arma de matar urso?
PaiÔ minha plincesa lindadaminhavida, você tá bem?
PampasAi Pai, tô sim, obrigada por perguntar! Só tô ansiosa pra passear. Vamo passear?
A ignorada de Lucas dessa vez durou quase uma hora, até que ambos acordaram vendo o Pai colocar uma blusa. Pampas era sempre muito animada com qualquer coisa: toda vez que o Pai ia até o guarda-roupas, já imaginava que ia passear e começava com seus pulos retos para cima, levantando as patas da frente como se fosse um cavalo.
AUUUUUUUUU AU-AU-AUUUUUUUUU
Esse sim era o sinal. Quando o Pai latia daquele jeito, não havia dúvidas: era hora de passear.
PampasVAMOS LUCAS, VAMOS, VAMOS PASSEAR!!! NOSSA COMO EU ESPEREI PRA PASSEAR. VAMOS VAMOS!!! PAAAAAAI!!!!!!
PaiVamo passear meus Pilicotecos?
LucasPAMPAS PAMPAS PAMPAS É REAL, A GENTE VAI MESMO, ACHO QUE A GENTE VAI PRA PRACINHA NOVA.
PampasAI MEU DEUS LUCASSSSSSSSS NÃO ACREDITOOOOOO, PRACINHA NOVA? Meu Deus, será que eu tô bem arrumada pra isso? Será que muita gente mijou por lá?
LucasQuem vai mijar sou eu!
O único momento em que Lucas ficava tão animado quanto Pampas era na hora de passear. O Pai fechou a porta, pegou as coleiras e falou “Senta”. Pampas, como sempre, espirrava, dava duas voltas, alguns pulinhos, até sentar e colocar a coleira. Lucas era um fujão, mesmo querendo ir.
Saindo do portão, havia um quadrado de tijolos cheio de flores plantadas por dona Lia. Era a primeira parada: Lucas fazia xixi no mesmo lugar de sempre e Pampas enfiava a cara nas plantas para ver se pegava algo lá dentro — entre baratas e bostas, sempre ouvia um sapo do Pai.
Todos os dias eles saíam para a direita e desciam as entrequadras daquela mesma rua; dessa vez foram para a esquerda. Pampas não parava de puxar o Pai. Eram muitos cheiros, barulhos e rostos. Nunca havia atravessado a rua com tantos carros.
Na entrada da rua, vários cachorros começaram a latir descontroladamente. Pampas, que não gostava nada de cachorros, puxou seu pai com toda força e, quando não foi suficiente, se virou para ele implorando para que não entrassem ali.
Percebendo que Pampas estava incomodada, o Pai continuou para a próxima rua, mais calma. Lucas também puxava com força, mas não por medo: já sentia o cheiro da pracinha. Ali, como sempre, um cheira-cheira danado, Lucas puxando para um lado, Pampas para o outro.
PampasLUCAS, LUCAS, LUCAS, acho que o Negão da Rua 04 passou por aqui!!!
LucasCadê cadê cadê?
Continuaram até a Comercial, uma rua bem movimentada. Pampas estava descontrolada: aquele tanto de carro, gente e latido fazia sua cabeça acelerada pifar. Queria cheirar tudo, correr atrás de tudo e, ao mesmo tempo, tinha medo de tudo.
Lucas já estava acostumado a rondar por ali com dona Lia. Não puxava mais a guia: andava na velocidade do Pai, com suas orelhas saltitantes ao vento.
PampasLUCASSSSSSSSSS OLHA AQUELA CASA COM CHEIRO DE CAFÉ DA MANHÃ! VAMO LÁ! PAI, VAMO LÁ POR FAVORRRR! EU NUNCA TE PEDI NADA!!!!
LucasIsso se chama padaria, Pampas. É aí que o Vô e o Pai comem.
PampasUAU EU QUERO IR LÁ E COMER TUDO. Ah nem, por que o Pai não deixa?
O Pai foi até uma distribuidora, comprou seus tabacos e sedas e retornou para casa. Pampas estava exausta, tomou quase toda sua água, esperou o Pai passar pela casa até parar no quarto, onde deitou no chão e não saiu dali até a noite.
Lucas
A aventura de Lucas
A garagem fica de frente pra sala e todo dia o Vô chega de algum lugar, abre o portão grande e entra com sua Oroch.
Normalmente Lucas e Pampas param o que estão fazendo e vão receber o Vô, mas às vezes o Sr. Lucas aproveita para se aventurar pelas ruas de Taguatinga. Foi assim que começou aquela manhã de terça-feira: Lucas viu o portão se fechando e aproveitou para dar uma volta.
Diferente de Pampas, Lucas era destemido. Seu tamanho não dizia nada: não tinha medo de nenhum cachorro ou urso. Muito pelo contrário, sempre gostou de brincar com cachorros maiores, além de gostar muito das pessoas.
Lucas mijou nas plantas de sua calçada enquanto o portão fechava. Seguiu a rua em direção à Praça do DI e, passando pelas praças no caminho, cada cheiro diferente o animava e dava mais vontade de continuar na aventura.
A Praça do DI era um lugar onde nunca tinha ido. Havia bancos, árvores, mas Lucas sempre gostou de objetos cilíndricos e começou sua missão de mijar em todos os postes.
DJIae molequinho, tá fazendo o que aqui?
Era DJ, um cão-de-santo-humberto.
LucasOi, oi, tudo bem? Preciso mijar em todos os redondos.
DJComo assim, cara? Você veio até aqui só pra mijar nos postes? Não sabe que essa quadra é perigosa? Aqui tem muito noia, perseguição, briga, você é bonitinho demais pra estar aqui.
LucasO que é um noia?
DJUm noiado é alguém que usa muita drog…
DJ parou de falar imediatamente e olhou atentamente para a rua de cima.
DJAQUILO É UM TUBARÃO?
A conversa foi interrompida pois DJ saiu correndo em disparada de um Chevette 75. Ao ouvir a palavra “tubarão”, Lucas olhou em volta, não viu nenhuma barbatana, mas achou melhor voltar para casa.
Voltando, sentiu um cheiro forte e reconheceu imediatamente: era o Negão da Rua 04. Correu com tudo subindo as pracinhas em direção ao cheiro. Foi aí que chegou no Pistão, que nunca havia atravessado nem com o Pai.
São duas vias que sempre têm carro passando em alta velocidade, e o cheiro vinha do parque do outro lado. Lucas sentou embaixo da sombra de uma árvore e deu algumas fungadas no ar. Queria muito conhecer o Negão da Rua 04, mas o Pai sempre brigou muito quando ele ou Pampas tentavam atravessar o Pistão.
Depois de alguns segundos pensando, decidiu voltar para casa.
Voltou tranquilo, sereno, com suas orelhas saltitantes. No caminho, ouviu o Pai lhe chamar e voltou correndo. O Pai estava do lado de fora e o avistou assim que Lucas entrou na rua.
PaiLucas seu safado, onde você estava?????? Quer me matar do coração????? Graças a Deus você está bem.
Enquanto ouvia o sapo, deitou no chão fazendo seu charme: esticar as patas da frente, uma depois da outra. Foi pego no colo e levado para dentro.
MarizversoENAdmin